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15 de abril de 2018

Declaração da Conferência Internacional

Por Conferencia Internacional

Buenos Aires, 2 e 3 de abril de 2018

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As organizações operárias, socialistas e revolucionárias reunidas na Conferência Internacional convocada pelo Partido Obrero da Argentina, o Partido dos Trabalhadores do Uruguai, o EEK da Grécia e o DIP da Turquia, que teve lugar na cidade de Buenos Aires nos dias 2 e 3 de abril, emitimos a seguinte declaração, frente ao palco de crises econômicas e políticas, guerras e rebeliões populares aberto à escala mundial.

O crescimento das guerras internacionais e fenômenos como o de Trump, ou o Brexit evidenciam que a crise mundial não pode se resolver por meios puramente econômicos. Reforçam-se as tendências à rivalidade internacional, a guerra fiscal e comercial, rompendo os equilíbrios internos nas nações e alterando as conjunturas episódicas entre as classes. A restauração capitalista, por sua vez, não poderá ser resolvida como um processo pacífico. Assistimos a uma das transições históricas mais contraditórias e violentas da história.


Guerra e restauração capitalista

Desde a dissolução da União Soviética, a humanidade ingressou em um novo ciclo de guerras imperialistas, lideradas fundamentalmente pelo imperialismo norte-americano.

As guerras que estão explodindo no Oriente Médio e no Norte da África, nos espaços ex iugoslavos e soviéticos, Afeganistão e África desde a década de 1990, são a expressão das tendências fundamentais do período de restauração capitalista, da nova grande depressão que se instalou desde 2007-2008 e a conseguinte guerra econômica que se estabeleceu.

As chamadas guerras “locais” ou “por procuração”, ou seja por meio do armamento de agentes “nativos”, têm um fio condutor internacional, ou seja que fazem parte da tentativa de enfrentar a crise por meio de uma recolonização do planeta, em especial do espaço dos ex “estados socialistas”. O ciclo de guerras imperialistas ingressa, de certa forma, numa nova etapa; no mar do sul da China, Coreia do Norte, Ucrânia (região de Donbass) emergem conflitos diretos com a Rússia e China.

O aumento das tensões e antagonismos entre as classes dominantes e governos na Grécia e Turquia são totalmente explorados pelos imperialismos dos Estados Unidos e da União Europeia e ameaça em ampliar a extensão da guerra imperialista na região do Egito e dos Balcãs. Chamamos aos trabalhadores e oprimidos na Grécia, Turquia e Chipre a unir-se e lutar contra o inimigo comum: o imperialismo e o capitalismo. Guerra contra as guerras imperialistas e capitalistas! Pela unificação da luta de todos os povos numa Federação Socialista!


A crise capitalista

Estas guerras imperialistas estão estreitamente unidas à crise capitalista, iniciada a princípios da década de 70, e que tem cobrado uma dimensão colossal com a bancarrota de 2007/8. A bancarrota capitalista não é senão a expressão explosiva de um longo período de esgotamento do desenvolvimento das forças produtivas e da decadência histórica do regime. Um quarto de século após a dissolução da URSS e do processo restauracionista na China demonstra que o impasse histórico do capitalismo não tem via de saída por meios econômicos e políticos. A integração das ex economias estatizadas à economia capitalista mundial não será conquistada por meios “pacíficos”.

Crescente fortemente a perspectiva de uma dissolução da UE, não somente com a debacle da Grécia, mas também em seguida com o Brexit e a ascensão de forças de direita, em especial na Alemanha e Itália, com a bandeira demagógica de “recuperar as soberanias nacionais”. Um exemplo das forças centrífugas da crise da UE se coloca em evidência no Estado espanhol; na luta de milhões de pensionistas nas ruas contra o saque do sistema estatal de aposentadorias se ve em todo o estado e mostra a centralização da classe operária em defesa de suas conquistas. Neste quadro defendemos o direito à autodeterminação dos povos do Estado espanhol incluída sua independência e lutamos por uma federação socialista dos povos ibéricos.

A ameaça de dissolução nacional, na Rússia, impulsiona a criação de um governo da KGB, encabeçado por Putin, e faz emergir os regimes autoritários e bonapartistas, de caráter restauracionista, em quase todos os estados do ex “bloco socialista” e na China. A explosão financeira na China, em 2014, e o crescimento de uma ameaça de bancarrota generalizada, explica a reivindicação de poderes excepcionais por parte da camarilha de Xi Jing-pin.

A bancarrota capitalista produziu um protecionismo nacional, entendido como instrumento de guerras comerciais, fiscais e financeiras – e, em definitivo, a própria guerra. A bancarrota lembrou aos Estados imperialistas que sua primeira obrigação é resgatar da quebra aos capitais de seus próprios países. Isto se manifesta, por sobretudo, nos Estados Unidos, e numa quebra das relações internacionais em seu conjunto que extrapola as contradições do imperialismo. Trump tem enfrentado o desafio desta crise com a consigna “América First”, isto é a guerra em todos os terrenos, internacionais e nacionais. A ascensão de Trump abre uma crise de regime político norte-americano e une as guerras imperialistas ao aniquilamento dos direitos democráticos nos Estados Unidos.

A depressão econômica que se produziu após a crise financeira de 2007-2008 é o caldo de cultura de bandas fascistas, por um lado, como assim também de giros bruscos das massas para a esquerda e rebeliões populares pelo outro. Esta depressão não é mais que a expressão concreta do declínio histórico do modo de produção capitalista. A socialização e internacionalização das forças produtivas requer, a uma escala crescente, que a economia mundial se planifique sobre a base da propriedade coletiva, sob a direção da classe operária. Contra qualquer expressão de violência fascista chamamos à frente única da classe operária em defesa das organizações dos trabalhadores. Denunciamos o apadrinhamento e cumplicidade das instituições e governos das democracias capitalistas no desenvolvimento dos movimentos fascistas e reivindicamos o programa da defesa dos trabalhadores em relação à burguesia que é o método para derrotar os ataques fascistas e levar esta luta à vitória.

A Conferência propõe a organização de uma campanha política contra a xenofobia e o fascismo organizados, contra toda a forma de discriminação e opressão e convoca a mobilização da classe operária contra esta barbárie.

China e Rússia

A “rota da seda” e a fundação de bancos internacionais representa uma tentativa, por parte da China, de se esquivar às consequências da crise capitalista mundial. De jeito nenhum é uma saída. Constitui, em última instância, um ônus fiscal para o estado dada a ausência de uma burguesia nacional. Uma grande quantidade de empreendimentos deste plano já se encontra numa paralisia. Nem na Rússia, tampouco na China se formou um capital imperialista, e a possibilidade de um imperialismo de exclusiva base estatal é uma hipótese inconsistente. Estes regimes de transição ao capitalismo enfrentam os polos, por um lado da colonização imperialista (e guerras), e pelo outro da revolução proletária. Numa hipótese de guerra imperialista contra a Rússia e/ou China, para levar às últimas consequências uma restauração capitalista de caráter colonial, nós, os socialistas revolucionários vamos lutar pela derrota completa do imperialismo e aproveitar essa luta para impulsionar o ressurgimento dos soviets, como poder político independente da classe operária; expropriar à oligarquia e à burocracia e desenvolver uma revolução socialista, defendendo a livre autodeterminação dos povos, na perspectiva da reconstrução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas na origem revolucionária e internacionalista da revolução de Outubro.

Na Ucrânia defendemos a resistência contra a colonização imperialista da Otan e o FMI; o apoio à resistência de Donbass e a expropriação da oligarquia estabelecida na região protegida pelo regime de Putin; por uma Ucrânia independente e socialista!


Oriente Médio

Em seu afã por cercar e isolar a Rússia e a China, o imperialismo, junto com seu aliado sionista, mantém viva a chama da guerra na região do Oriente Médio e no Norte da África, desde a Guerra do Golfo de 1991. No século XXI, uma sucessão de guerras estourou no Iraque, Líbano, Gaza, Líbia, Síria e Iemen. Existe um claro perigo de uma única guerra em toda a região. Cada campo é impulsionado pelos interesses do imperialismo e as potências regionais, incentivados pela divisão sectária. O imperialismo estadounidense, agora sob Trump, trabalha junto com Israel e Arábia Saudita, acompanhado pelo Egito, para isolar o Irã e o seu bloco de alianças (que se estende através dos regimes, ou as forças de oposição no Iraque, Síria, Líbano, Iemen, Bahrein e inclusive as províncias ocidentais da Arábia Saudita), no qual a Turquia faz jogo duplo.

Na guerra em curso na Síria denunciamos os compromissos recíprocos entre a Otan, Rússia, Turquia e Israel, e reclamamos a suspensão da intervenção militar estrangeira; a organização de uma assistência humanitária internacional, sob controle das organizações operárias; o livre acesso de refugiados e imigrantes a todos os países e a ajuda para sua residência; o desarmamento dos grupos armados, as organizações talafistas-sectárias e a expulsão da camarilha dinástica dos Al Assad, na perspectiva da Federação Socialista do Oriente Médio. Somente nesta perspectiva poderão realizar-se as aspirações nacionais da nação curda.

A recente matança de palestinos por parte do Estado de Israel se dá no quadro da ofensiva militarista na qual se encontra inserido o sionismo e o imperialismo em todo o Oriente Médio. No marco da perspectiva da Federação Socialista da Oriente Médio propomos a destruição do estado sionista e o estabelecimento de uma República laica e democrática na Palestina, na qual coexistam judeus e árabes.


América Latina

A América Latina destaca-se, na presente etapa, pelo colapso das experiências “nacionalistas”. Todas elas vieram à luz como consequência da crise mundial, nas turbulências anteriores à explosão de 2008. Foram instrumento de uma operação de resgate do capital e afundaram-se, no período recente, pela mesma crise mundial. O colapso “nacional e popular” criou uma situação particular: a emergência de governos de direita, uns por meio de eleições, outros por meio de golpes-de-estados “parlamentares”. Ao lado destas experiências desenvolvem-se lutas em massa, ainda que Macri e Temer estejam conseguindo fazer passar reformas estratégicas antioperárias com a colaboração do peronismo e do PT. A recente crise e queda do governo Kuczynski, no Peru, demonstra que a direita não reúne as condições políticas para estabilizar a região.

A América Latina não está à margem das guerras imperialistas, nem poderia estar em sua condição de quintal do imperialismo ianque. O Pentágono montou um gigantesco sistema militar na região, desde a IV Frota, as bases na Amazônia e a tentativa de se implanta-la na Tríplice Fronteira.

Advertimos a respeito da ameaça de bloqueio econômico, golpismo e intervenção militar na Venezuela, e chamamos a enfrentá-la por meio da agitação e a mobilização. Nesta luta advertimos, por sobretudo, que Maduro não é um governo de trabalhadores, mas sim de oligarquias políticas e econômicas, “boliburguesia”, e que se empenha num compromisso com o capital financeiro, como se demonstra, entre tantos outros, a hipoteca das reservas petroleiras, ou o seu leilão ao capital internacional. Uma vez mais e para sempre: Pelos Estados Unidos Socialistas da América Latina!


Rebeliões populares

As recentes rebeliões populares que tiveram lugar na Tunísia, Sudão, Irã e Marrocos, são ecos da anterior espetacular onda revolucionária de 2011-2013, desde as revoluções árabes, a Espanha e Grécia, desde a Turquia e os Balcãs, até Wall Street e Brasil. Estes recentes eventos mostram o caráter provisório das derrotas das revoluções árabes - cuja máxima expressão foi a revolução no Egito - bem como da viabilidade dos regimes políticos que foram montados sobre essas derrotas.

Na França, apesar de ter passado a reforma trabalhista sem luta, fruto do colaboracionismo da burocracia sindical, o anúncio da privatização da ferrovia deu lugar a uma indignação generalizada e um movimento de luta dos trabalhadores que se dá na perspectiva da greve geral. Na Alemanha, a luta do sindicato metalúrgico e das estatais por aumento salarial abrem o caminho ao ressurgimento de grandes lutas operárias. Na Turquia, a luta dos operários metalúrgicos começada em 2015 com greves selvagens, com ocupação de fábricas em 2018, resultou numa greve de 135 mil operários que alcançou um sucesso que é necessário assinalar. Na China vem se dando uma vigorosa recuperação da classe operária, o mesmo que em grande parte da Ásia. A tendência de fundo à escala mundial segue sendo o ressurgimento de grandes lutas operárias estimuladas pelo conjunto das crises econômicas e políticas.

A tendência à rebelião popular manifesta-se no desenvolvimento que tem adquirido o movimento das mulheres e na radicalização de suas mobilizações, ou seja a ação direta e a greve. A projeção política deste movimento expressa-se quando propõe a república na Espanha, a derrubada da teocracia no Irã, o repúdio a Trump e a luta contra os Temer e os Macri na América Latina. Antecipa grandes irrupções de massas.

No marco da emergência das rebeliões populares, a crise de direção dos explorados salta aos olhos. A linha dominante da esquerda, de centroesquerdistas e nacionalistas é acentuar seus compromissos e submissão à ordem social vigente. O balanço desta experiência demonstra o acerto da estratégia da independência de classe e a construção de partidos operários revolucionários para lutar por governos de trabalhadores.

 

Reconstruir uma internacional operária e socialista

As organizações reunidas na Conferência Internacional chamamos ao proletariado das metrópoles imperialistas a lutar contra as guerras desencadeadas por suas burguesias e seus estados, por um lado, mediante a mobilização internacional, por outro, mediante um incremento da luta de classes em seus países, na tradição do “inimigo encontra-se em meu próprio país”.

Tomamos partido por uma frente única de combate contra as guerras imperialistas com as massas e as organizações que lhe opõem resistência, sem importar seu credo, desde que encabecem uma luta real contra o imperialismo. Denunciamos, além disso, a cumplicidade das burocracias restauracionistas e as burguesias nacionais com esse mesmo imperialismo, e o propósito de valer-se dele para levar adiante suas políticas de privatizações em massa e a repressão da classe operária em seus próprios países.

Todo o desenvolvimento da bancarrota capitalista e as guerras exige uma luta de alcances históricos, somente a derrubada do capitalismo e a imposição de um governo de trabalhadores pode favorecer a uma reordenação integral da sociedade sobre novas bases sociais.

Abaixo as guerras imperialistas! Que os capitalistas paguem a conta da crise! Por governos de trabalhadores! Pela construção de partidos socialistas e revolucionários! Construamos a internacional!

Longa vida à revolução socialista!

 


 

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Na manhã da quarta-feira, o general Villas Boas, comandante em chefe do
 exército brasileiro ordenou ao Supremo Tribunal Federal que coloque na prisão ao ex presidente Lula, sob pretexto de erradicar a “impunidade”. É a culminação de uma onda de pronunciamentos de militares da reserva que fizeram a mesma exigência. Ocorre no momento em que o exército se faz valer da militarização do Rio de Janeiro. Esta clara tendência golpista ocorre frente à evidência de que o STF encontrava-se dividido em relação à prisão imediata de Lula, ou lhe permitia aguardar em liberdade à última apelação de um julgamento que o condenou a 12 anos de reclusão. A divisão do Tribunal, com o escore de 6 a 5 contra o pedido de Habeas Corpus de Lula deixa a nu a crise política que desatou a execução da condenação, que tem o objetivo de impedir a participação de Lula nas eleições presidenciais de outubro próximo.

Num país governado por corruptos, desde o presidente Temer e o Congresso até o último dos governadores, o encarceramento imediato de Lula, para vetar sua candidatura, por exigência militar, constitui um golpe de estado em regra. As bandas fascistizantes têm saído às ruas com violência, para apoiar a intervenção militar. A "pressão" golpista à Suprema Corte e a ameaça implícita de reprimir toda a manifestação popular contra a prisão, converte ao regime político fraudulento instalado no Brasil num protetorado militar.

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Tudo isto põe às claras que o chamado ‘golpe parlamentar” ou “institucional” que se produziu em junho de 2016 foi um golpe militar com a cumplicidade de todas as instituições do Estado brasileiro  com o apoio da “comunidade internacional”, ou seja o imperialismo dos EUA, a UE e as "democracias" latinoamericanas.

Chamamos a uma mobilização continental contra o novo golpe no Brasil, independentemente do fato de que Lula e os governos do PT sejam responsáveis pela corrupção do "petrolāo", do "mensalão" e das enormes negociatas da Odebrecht, Andrades Gutierrez, Correia Camargo, Eike Batista e toda a burguesía brasileira e internacional. O corrupto Temer e seu partido co-governou com o PT durante 13 anos, sem interrupção. O PT não chamou à mobilização popular para derrotar a destituição de Dilma Roussef.

A intervenção militar no Brasil ocorre no mesmo momento em que Trump militariza a fronteira com o México e prepara um embargo petroleiro contra a Venezuela, com a finalidade de fazer viável um golpe militar ou uma intervenção estrangeira. A crise capitalista mundial e as guerras econômicas e militares estão soterrando aos regimes políticos latinoamericanos e ameaçam severamente às massas trabalhadoras. A política dos Lula, dos K, dos Correia e dos Chávez-Maduro é diretamente responsável pela ascensão da direita e do golpismo.

Chamamos a combater ao golpismo, à direita e ao imperialismo, não em defesa de uma volta dos regimes patronais "nac & pop", que são os responsáveis por este retrocesso, mas sim para impulsionar uma saída revolucionária dos trabalhadores e a Unidade Socialista da América Latina.

Declaração política do Partido Obrero (Argentina) – Partido dos Trabalhadores (Uruguai) – DIP (Partido Revolucionario dos Trabalhadores, Turquia) – EEK (Partido revolucionário dos trabajadores - Grécia)*

*Adere à essa declaração internacional O Tribuna Classista 

 

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Foto: Ex-presidente Lula e Guilherme Boulos, candidato do PSOL.
Versión en castellano


A intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro é possivelmente a manifestação mais aguda da decomposição política em que atravessa o Brasil. O corpo governamental que substituiu o governo de Dilma Roussef, destituída pelo Congresso, recorre a braçadas de afogado para conter uma crise que transborda em todos os planos. O emprego das forças armadas com o propósito de combater o narcotráfico ameaça converter o Brasil em outro México, em um regime de violação dos direitos humanos, que deixou um rastro de 200 mil mortos e assassinatos. Outras numerosas cidades brasileiras enfrentam situações ainda piores que as do Rio. A militarização favorece ao desenvolvimento eleitoral de candidatos de direita que propugnam um regime político de estado de sítio. No plano econômico, a privatização generalizada de setores estratégicos, impulsionada pelas denúncias contra o chamado “petrolão” (corrupção na Petrobrás) e as propinas da Odebrecht, não criaram nenhuma onda nova de investimentos, ao invés disso, as qualificadoras de risco rebaixaram a dívida brasileira, que equivale a 100% da produção nacional.

Este quadro de conjunto criou um acentuado impasse na governabilidade do país. Os escândalos por corrupção continuam afetando os capitalistas e os políticos. É o que tem voltado a ocorrer com os donos do frigorífico JBS, o principal produtor mundial de carne, e mesmo com o presidente Temer, o qual teve que abrir as contas bancárias por ordem da Justiça. A proximidade das eleições gerais, em outubro, não serve como válvula de escape à crise, mas sim pelo contrário. Isto explica que alguns observadores advirtam da possibilidade de que sejam postergadas, para possibilitar uma mudança do regime político para o parlamentarismo. A proscrição de Lula, a quem as pesquisas apontam como vencedor nos dois turnos eleitorais, não seria suficiente para arbitrar um resultado que satisfaça ao oficialismo e aos chamados ‘investidores’. Lula foi condenado em duas instâncias, com uma pena de 12 anos e meio, e enfrenta além disso vários outros julgamentos por corrupção. Os círculos governantes temem uma transferência de votos de Lula para Fernando Haddad, ex-presidente do PT e ex-prefeito da cidade de São Paulo – o plano B do lulismo. Uma vitória de Haddad instalaria um governo Dilma Roussef  2 – uma saída política, ainda que inócua, inaceitável para o poder atual.

À esquerda deste cenário político, o PSOL não escapou da crise, nem tampouco aos métodos golpistas “parlamentares”. O PSOL foi constituído após a expulsão de vários parlamentares do PT, quando se negaram a votar a reforma previdenciária, no primeiro ano do governo de Lula, que atacava os direitos previdenciários e as aposentadorias dos servidores públicos federais. Foi, desde o começo, um aparelho controlado por políticos liberais de esquerda, onde se abrigou toda a esquerda, em especial a trotskista, que o defendia politicamente para preservá-lo como guarda-chuva eleitoral e veículo parlamentar. Nas eleições municipais foi usado também pelo MRT (PTS) e há dias foi admitida uma cisão do PSTU – o MAIS. Abriga dirigentes de orientação clerical e emigrados tardios do PT que exerceram funções de estado. No segundo turno da última eleição, em 2014, apoiou a fórmula Dilma-Temer. Antes que Dilma tivesse garantida no segundo turno, essa fórmula tinha acentuado a política de “ajuste” anti-operário e levado aos ministérios banqueiros da corrente “neoliberal”. Para dizer pouco, o PSOL é uma agência da esquerda do regime político brasileiro.

Há poucos dias, o PSOL sofreu seu próprio golpe institucional, duplamente. Primeiro, a “Fundação” do PSOL subscreveu um acordo político com as “Fundações” do PDT, PT e outros, cujo programa assinala a necessidade de fazer “crescer” o Brasil, com uma série de propostas desenvolvimentistas, quase filo-macristas. O recurso às “Fundações” não é um capricho, porque assim se evita a consulta aos militantes dos respectivos partidos. A Frente já foi batizada de “Cidadã”, e justifica-se a si mesmo, como ocorre também na Argentina, como um meio para conter a vulnerabilidade da democracia no Brasil. Não propõe, no entanto, nenhuma medida concreta de contenção, o qual é coerente, porque o exército já foi enviado para o Rio de Janeiro durante o governo Lula – assim como foram Lula e o PT, governando em aliança com partidos patronais que retomou o ataque aos direitos previdenciários que haviam iniciado seus predecessores. A última coisa que lhe passaria pela cabeça à Frente Cidadania seria se opor ao alto comando militar, que já deu a entender, por meio de militares da reserva, que a tem na mira, incluído um veto à vitória eleitoral de um candidato do PT.

O segundo episódio golpista veio em seguida, preparado pelo anterior. O dirigente do Movimento de Trabalhadores Sem Teto, Guilherme Boulos, um declarado lulista, se filiou no PSOL e foi lançado candidato a Presidente pela maioria liberal da direção, não sem antes receber saudações de apoio político do próprio Lula. Em seguida lançou seu próprio programa – de mesmo corte desenvolvimentista, o qual apresentaram as “Fundações”. A intenção de Boulos é converter o primeiro turno eleitoral em uma prévia com o candidato que designe o PT no lugar de Lula. A manobra é apoiada pelos partidos patronais da Frente Cidadã, e contaria com a presença de candidatos do PC do B e do PV. Nada disto significa que ficariam separados do empreendimento outros conhecidíssimos políticos patronais. Por exemplo, Ciro Gomes, ex-governador do Ceará, e Renan Calheiros, do PMDB, promotor do “impeachment” contra Dilma, estão acompanhando Lula em suas caravanas políticas.

É claro que a estrutura política brasileira está se reacomodando a puro golpe, pois não suporta o impacto da crise e ao deslocamento político e social da qual é responsável. O trotskismo do PSOL reagiu a estas duas medidas de choque seguidas com muito nojo, pois pretendia que o PSOL fosse às eleições com outro candidato, Plinio de Arruda Sampaio Jr., um acadêmico de prestígio, que denuncia a corrupção e o entreguismo dos governos de Lula e Dilma, e se apresenta como independente, mas não se inscreve em uma corrente organizada, nem tampouco de luta de classes. No sábado próximo deverá resignar sua vocação frente ao golpismo compartilhado de Lula, Boulos e a direção do PSOL.
Que farão os trotskistas do PSOL, tanto os que se filiaram na FIT da Argentina, como aqueles que respondem à Esquerda para a Mudança? Chegaram ao final de um longo caminho oportunista, focado em uma construção política à sombra da pequena burguesia parlamentar. Não têm espaço nem para retroceder. O mais provável é que briguem por uma “beira” nas candidaturas proporcionais. Não têm direito a espernearem, porque cavaram, com todo cuidado, sua própria fossa. 
As eleições de outubro estão propostas, por parte do regime político, como um meio para legitimar, com o voto, o golpe que derrubou Dilma – uma sorte de macrismo “post festum” (ressaca). A incerteza a respeito de poder atingir este propósito anuncia tentativas de novos golpes. Nenhuma força política de esquerda no Brasil desenvolve esta possibilidade ou prevê crises políticas ainda mais severas; vai às eleições com um cálculo eleitoral. A crise no PSOL está viciada por esta cegueira – ninguém adverte às massas que o regime político tem seu próprio plano B, que é uma armação eleitoral que lhe assegure a continuidade. Entre lulistas e anti-lulistas há somente uma briga eleitoralista. 

Temos que discutir a situação brasileira e a política da esquerda, tanto da democratizante, como da que se pretende revolucionária. Os brasileiros chamam “efeito Orloff” à ressaca que sofrem Brasil ou Argentina depois que algum dos dois países entrou, primeiro, em uma crise política.
 

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